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Internamento em Psiquiatria / Psychiatric Admissions

Volume X Nº5 Setembro/Outubro 2008


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Volume X Nº5 Setembro/Outubro 2008

Leituras / Readings




Até onde nós sabemos, existem vários casos de psiquiatras mortos pelas mãos dos seus doentes, mas este é o único caso de um psiquiatra falecido não só pelas mãos do seu doente mas também juntamente com ele.
O psiquiatra Bernard von Gudden foi um dos responsáveis pela introdução dos princípios da psiquiatria non-restraint nos hospitais alemães, mas é fundamentalmente conhecido por ter sido o mestre de Kraepelin. Nessa altura, era director do Hospital Psiquiátrico de Munique e conselheiro médico real, e tinha assinado dias antes um relatório psiquiátrico-forense que concluía que o Rei Luís II tinha uma paranóia e que, portanto, o seu estado mental não era compatível com a continuidade das suas funções à frente do Estado, indicando a necessidade da inabilitação do monarca. Na sequência desta acção de inabilitação, uma comissão tinha-se deslocado, alguns dias depois, ao castelo de Neuschwanstein para comunicar a decisão ao Rei, correspondendo a Von Gudden transmitir a notícia ao monarca:

«Senhor, assumo hoje o mais triste dever da minha vida. Vossa Majestade, segundo a opinião de quatro médicos, foi declarado inabilitado. O Príncipe Liotpold assumiu a Regência. Recebi ordens de acompanhar a Vossa Majestade ao castelo de Berg esta mesma noite. Se Vossa Majestade não ordenar nada em contrário, senhor, o coche sairá às quatro horas.»

Luís II ficou finalmente recluso no castelo de Berg, sob a estreita vigilância de elementos da guarda pessoal, do psiquiatra e de vários funcionários do Hospital Psiquiátrico de Munique. Foram extremadas as medidas de segurança por temor à fuga ou ao suicídio do Rei, entre outras foram colocadas grades nas janelas, eliminados os puxadores das portas e as facas

dos serviços de talheres, e só foram permitidas as saídas do monarca aos jardins do palácio em companhia de guardas. Nessa noite, excepcionalmente recriada no extenso monólogo interior escrito por Klaus Mann (A janela gradeada. A morte de Luís II de Baviera), não sabemos bem como, mas o Rei conseguiu convencer o seu psiquiatra a dar um passeio pela margem do lago sem acompanhamento. Às 9 horas da noite, o ajudante de Von Gudden, o Dr. Muller, preocupado com a demora, deu o alarme no interior do castelo, organizando-se uma batida pelo lago, que termina com a descoberta na água dos dois corpos sem vida.
As autópsias aos dois cadáveres permitiram concluir que enquanto o Dr. Von Gudden morreu por afogamento, o Rei Luís II de Baviera parece ter morrido por congestão cardíaca. Também é necessário destacar que Von Gudden tinha sinais evidentes de ter participado numa luta corporal: a unha de um dedo da mão partida e múltiplas lesões cutâneas (equimoses), algumas à volta do pescoço, sinais que, curiosamente, não apareceram no corpo do Rei.
A explicação mais plausível para isto é que o Rei, conhecido por ser um bom nadador, fugiu em direcção ao interior do lago, e o psiquiatra tentou evitar a sua fuga, entrando numa luta corpo a corpo, na qual o Rei terá tentado estrangular o psiquiatra, e que terminou com a vitória do Rei, que, uma vez liberto, começou a nadar tentando atingir a margem oposta do lago, morrendo, no entanto, uns metros mais longe, em consequência da congestão cardíaca.

2. Um Rei Mecenas e Anacrónico


Luís II de Baviera subiu ao trono do Reino de Baviera em 1885, num momento histórico de grande transcendência para o futuro da Alemanha. Durante o seu reinado, este país iniciou o caminho em prol da formação de um Estado unitário, que integrasse, sob a égide da Prússia —representada pelo chanceler Otto von Bismarck e pela figura emblemática do Kaiser Guilherme, futuro Imperador de todos os alemães— a floresta variada de reinos, ducados, principados e cidades livres, que constituíam o actual território alemão. Nesse sentido, o Rei bávaro tinha todos os atributos para se tornar uma figura anacrónica e esquisita: amante dos monarcas autocratas segundo o modelo do Ancient Regime, em particular Luís XIV, Luís XV e Luís XVI, apaixonado pelas artes, excêntrico, noctívago, sonhador, homossexual, misantropo, pouco apaixonado pela

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