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Volume IX Nº6 Novembro/Dezembro 2007


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Volume IX Nº6 Novembro/Dezembro 2007

Leituras / Readings


tras franceses de renome, a procura de uma solução para a doença do filho. Bombarda, a cujos ouvidos tinham chegado notícias sobre a cura miraculosa do seu ex-paciente, ficou curioso e fê-lo passar.
O que Bombarda não pensou é que o tenente persistia no seu delírio, centrado numa perseguição protagonizada por um ente abstracto que ele chamava “o Hospital”, e que, nesse dia 03 de Junho, tinha decidido pôr fim a situação, descarregando a sua Browning em aquele que representava simbolicamente a instituição: o seu primeiro médico, Miguel Bombarda.
A biografia escrita por Paulo Araújo, “Miguel Bombarda: Médico e Político”, editada este ano por Caleidoscópio, recupera vários postais comemorativos com imagens do funeral público de Bombarda, num dos quais o director de Rilhafoles ostenta o significativo título de “vítima da reacção”. A sua morte, acontecida em vésperas da proclamação da República, tornou-se um acontecimento com repercussões sociológicas inesperadas, e o seu funeral, efectuado em conjunto com outro herói da República, o almirante Cândido dos Reis, teve o tratamento de um funeral de estado e arrastou milhares de lisboetas para as ruas da cidade.
Este livro, que por paradoxos do destino sai do prelo, coincidindo com a extinção, como instituição autónoma, do hospital que levava o nome do insigne psiquiatra, é uma obra breve e compacta, rigorosa e de grata leitura, que permite uma aproximação rápida e completa à figura do médico e político.
Outro livro, publicado em 2006, “Miguel Bombarda (1851-1910) e as singularidades de uma época” debruça-se também na rica e complexa personalidade deste pai fundador da psiquiatria portuguesa. Já Barahona Fernandes falava das “realizações multifárias” de Miguel Bombarda e os coordenadores do livro, Ana Leonor Pereira e João Rui Pita, aceitaram o desafio que implicava congregar os meios necessários, vindos de todas as áreas do saber, para traçar um retrato, forçosamente multidisciplinar para ser completo, da personalidade multifacetada de Bombarda.
O fruto deste esforço é uma obra coral e impar que recolhe as comunicações apresentadas por ocasião do 1º Congresso Internacional de Cultura Humanística-Científica Portugue­sa Contemporânea realizada em Coimbra em

2002, dedicado à figura de Miguel Bombarda, coincidindo com os 150 anos do seu nascimento.
E qual é o perfil que nos transmite a leitura destas duas obras? Uma primeira imagem que surge é a do republicano socialista e maçon, o polemista anticlerical de raiz voltaireana (nesse sentido, tornou-se famosa a polémica que manteve sobre a alma com o Padre Santana), flagelo implacável da Companhia de Jesus e consciência crítica demolidora dos obstáculos levantados pela Igreja à emancipação do saber. “O clericalismo, eis o inimigo!” escreveu referindo-se aos jesuítas.
Outra imagem imprescindível, no fundo intimamente ligada com a anterior, é a do cientista, o “médico social” crente no valor ilimitado da Ciência como motor fundamental do progresso. Suas são as palavras exultantes: “Na religião da vida, que é o progresso, a civilização, a felicidade moral e material, gritaremos: Irmãos, temos que viver!” Como cientista espalhou os seus esforços titânicos não só na psiquiatria, mas também como higienista e promotor da luta anti-infecciosa.
Em termos científicos, Bombarda foi filho do seu tempo, integrando na sua pessoa todas as linhas de força (positivismo, materialismo, evolucionismo) que faziam bulir a ciência europeia da segunda metade do século XIX. Assim, foi introdutor em Portugal da “doutrina do neurónio” criada por Ramon y Cajal e das descobertas de Claude Bernard no âmbito da fisiopatologia experimental, erguendo-se ainda como defensor entusiasta da vacina contra a raiva que Pasteur tinha descoberto em França.
A ele devemos a criação da revista “A Medicina Contemporânea”, que se transformou em espaço privilegiado para as suas conhecidas polémicas intelectuais, e do laboratório de histologia do Hospital de Rilhafoles para o qual convidou Marck Athias, tendo também um papel protagonista na criação da Liga Nacional contra a Tuberculose.
Os contributos de Bombarda à psiquiatria portuguesa são amplamente conhecidos e começaram com as reformas fundamentais (administrativas, higiénicas, terapêuticas e reabilitadoras) que fez no Hospital de Rilhafoles.
­­­­­­­­­Tal como Alzheimer e Kraepelin faziam nessa altura na Alemanha, reduziu radicalmente o uso das medidas de contenção física, aplicando a balneoterapia como estratégia terapêutica alternativa, melhorou as condições higiénicas

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