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Cinematerapia / Cinematherapy

Volume IX Nº6 Novembro/Dezembro 2007


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Volume IX Nº6 Novembro/Dezembro 2007

Editorial / Editorial



Parece que hoje todos estão de acordo que a esquizofrenia é muito mais do que uma doença de delírios e alucinações e o tratamento destes aspectos da doença não garante, por si só, melhorias no funcionamento social e na qualidade de vida destes doentes.
Na verdade são muitos os domínios da vida quotidiana destes doentes que estão alterados. Por exemplo, as taxas de emprego são muito baixas (19,4% para doentes com esquizofrenia portugueses segundo o único estudo que fez uma caracterização nacional destes doentes – o estudo SOHO[1]). Estes doentes apresentam níveis de escolaridade mais baixos do que seria de esperar comparativamente com o seu estatuto sócio-económico. Para além disso, estes doentes também apresentam um conjunto de outros défices, nomeadamente relacionados com a capacidade de viverem de forma independente (em Portugal apenas 32,5% dos doentes com esquizofrenia vivem independentes[1]) as quais incluem competências relacionadas com a utilização de transportes públicos, cozinhar, cuidar da casa, manejar dinheiro e aderir à terapêutica.
Ou seja, 2/3 dos doentes com esquizofrenia são incapazes de desempenhar papéis sociais básicos tais como casarem-se (em Portugal apenas 18,6% dos doentes se casam[1]), trabalharem ou manterem relações sociais significativas, mesmo quando os sintomas psicóticos estão em remissão. Na verdade as redes de suporte social destes doentes são muito pequenas, tendo muitos deles acabado como sem-abrigo. Dito de outro modo, o nível de pobreza de uma grande parte destes doentes é de tal magnitude que em conjunto com as outras deficiências levou a OMS a considerar esta doença como uma das condições mais incapacitantes em todo o mundo[2, 3].
Há muitas razões que podem explicar esta insuficiência social que caracteriza estes doentes e que é um dos principais dados para o diagnóstico da doença, muito embora pareçam ser dados da própria doença os principais responsáveis e não as condições de vida a que estes doentes são muitas vezes votados. Há dados clínicos que estão claramente correlacionados com a tendência para a incapacidade funcional. Por exemplo, os défices cognitivos parecem estar na base das alterações funcionais mais importantes destes doentes. Estou a falar de défices na velocidade de processamento, da atenção, da memória e da função executiva os quais estão correlacionados e predizem o funcionamento social, os défices nas habilidades sociais, a capacidade para aprender e a qualidade do trabalho.
Sabendo-se disto, têm sido desenvolvidos esforços no sentido de remediar e activar as funções cognitivas alteradas com vista a melhorar o funcionamento social. No entanto, o que se tem verificado é que este tipo de acções só por si não tem um impacto tão evidente no funcionamento social como seria de esperar. É evidente que muitos factores podem estar na base desta discrepância. No entanto, antes de mais especulação, parece-me ser necessário encontrar um consenso quanto à


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