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Volume XIII Nº6 Novembro/Dezembro 2011


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Editorial / Editorial

Volume XIII Nº6 Novembro/Dezembro 2011



Ao longo destes 12 anos sempre me preocupei em escrever estes editoriais não tanto como indicadores das temáticas das revistas que o incluíam, nem mesmo tecer algumas considerações sobre alguns desses temas, mas sim como um espaço onde pudesse tecer considerações sobre temas da psiquiatria e, muitas das vezes sobre a profissão médica que é, no essencial, aquela a que todos nós, psiquiatras, nos sentimos ligados.
Neste editorial vou, pela primeira vez para um grande público, tecer algumas considerações sobre algo que há muito venho a pensar e a partilhar em círculos mais restritos. Tenho consciência que o tema é polémico e que vai gerar muita discussão. Mas fá-lo-ei, como sempre, com o maior rigor e máxima convicção.
O tema é este: a medicina não é uma ciência, mas sim uma prática, muito embora seja uma prática racional, rigorosa e sustentada pela ciência.
Deixem-me, antes de mais dizer qual o sentido com que uso aqui a palavra “ciência”. Uso-a no sentido mais restritivo, positivista, newtoniana: ciência como a explicação de como as coisas funcionam, de como realmente são. Ciência que nos fornece factos que são entendidos como sendo certos, replicáveis e confiáveis. Uso esta noção positivista de ciência porque ela invade a nossa cultura, marcando presença forte na educação, nos media e nas artes.
Dito isto, comecemos por analisar a medicina e a sua prática.
Há duas coisas - para além do conhecimento profissional e técnico - que distingue os médicos dos outros profissionais: uma familiaridade com a morte e uma relação estranha com a ciência. E estas duas coisas não estão desligadas.
A morte está sempre presente, mas só raras vezes é discutida durante a formação médica. Nos primeiros anos, o contacto com a morte é feito através de um cadáver que rapidamente se transforma num objecto de culto do contacto com o curso médico, mas que na verdade não representa a morte senão através de um objecto manipulável. Depois, ao longo do treino clínico, o contacto com a morte é praticamente diário, sobretudo através da observação dos corpos em declínio em doentes que caminham inexoravelmente para o fim. Em muitos casos, os médicos tentam tudo para adiar a morte mas, no fim, não a conseguem evitar. Mesmo que algumas vezes a morte seja bem-vinda, até ocasionalmente encorajada, para a maior parte dos médicos ela continua a ser o seu grande inimigo. Mesmo os médicos que escolhem a psiquiatria ou a obstetrícia como especialidade, em que a morte é menos frequente, quando ela acontece a vivência é ainda mais cruel. Dito isto, pode-se considerar que, pelo menos no fim do 1º ano do internato médico, os médicos têm uma experiência de contacto com uma grande parte dos infortúnios da existência humana.
Para lidarem com esta luta, os jovens médicos têm de se socorrer das suas competências clínicas e do objectivo final da sua profissão que não é mais do que o exercício de uma racionalidade fria, rigorosa e cientificamente informada ao serviço do seu doente. Este tipo de racionalidade significa que adquiriram competências intelectuais e comportamentais cruciais, para além de um método clínico racional. Absor-



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