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Psicopatologia e evolução / Psychopathology and evolution

Volume XIII Nº4 Julho/Agosto 2011


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Editorial / Editorial

Volume XIII Nº4 Julho/Agosto 2011



Comecemos por avaliar aquela que pode ser considerada a abordagem mais antiga para a identificação da função das regiões cerebrais – a análise dos défices resultantes das lesões localizadas nessas regiões. Independentemente da natureza das lesões, a principal finalidade desta abordagem é a identificação de um défice psicológico associado com essa lesão e inferir, a partir desse défice, qual a contribuição que a área lesada tem para actividade psicológica normal.
O exemplo clássico é o estudo de Broca do doente LeBorgne. Quando Broca viu pela primeira vez o seu doente, este tinha já estado hospitalizado durante 20 anos. A sua primeira queixa tinha sido uma perda de capacidade para falar, muito embora mantivesse a capacidade para emitir sons orais. Entre as poucas palavras que ele conseguia articular estava TAN, que acabou por se tornar o nome pelo qual o doente passou a ser conhecido. Após estas queixas iniciais o doente perdeu a sensibilidade do hemicorpo direito e desenvolveu paralisia. Por fim, a perna direita gangrenou e foi este quadro que levou o doente a ser visto por Broca.
Na altura em que Broca viu este doente, já um certo número de investigadores tinha proposto a existência de áreas nos lobos frontais envolvidas na fala e na linguagem. Algumas décadas antes, Franz Gall tinha proposto uma localização frontal da fala, mas a sua evidência era olhada com suspeição muito em razão dos seus argumentos: correlação da forma do crânio com o grau de desenvolvimento de um traço. Outros frenologistas se seguiram com argumentos desta natureza, sempre rejeitados pela comunidade científica dada a sua condição de natureza cartesiana, segundo a qual a mente era uma unidade de tal modo que mesmo que estivesse associada ao cérebro não se repartiria em diferentes faculdades localizadas em diferentes áreas cerebrais. Para além disso, estas dúvidas eram sustentadas pela evidência vinda de outros investigadores que tinham identificado doentes com lesões frontais que não apresentaram défices na fala ou doentes com défices na fala sem lesões frontais.
Alguns dias antes de Broca ver o doente, Simon Aubertin defendeu numa palestra da Sociedade de Antropologia a hipótese frontal da fala, tendo sido muito criticado. Broca sentia-se muito atraído por esta hipótese, de tal modo que propôs um encontro com o doente para o tratar e para testar a sua hipótese. Depois de o doente morrer Broca autopsiou-o, tendo-se revelado uma lesão maciça centrada na terceira circunvalação frontal do hemisfério esquerdo. Broca sustentou, então, que quando os défices do doente se limitavam à incapacidade para falar, a lesão estava limitada a esta área central. Mas avançou mais, sustentando que esta região era o local da fala articulada. Continuou a arranjar provas para a sua hipótese de tal modo que essa região do cérebro passou a ser conhecida como a área de Broca, denotando a força da sua evidência apesar de os dados não se ajustarem perfeitamente pois continuaram a aparecer doentes com lesões frontais sem problemas da fala e vice-versa. Dez anos depois deste trabalho, Carl Wernicke descreveu um padrão diferente de défice da linguagem que afectava sobretudo a compreensão da linguagem na sequência de lesões de uma parte do lobo temporal que ficou conhecida como área de



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