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Literacia em Saúde Mental / Mental Health Literacy

Volume XIII Nº3 Maio/Junho 2011


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Editorial / Editorial

Volume XIII Nº3 Maio/Junho 2011



Não há duvidas de que nos tempos actuais os temas das neurociências cognitivas são sobretudo sustentados pelos estudos imagiológicos. Na verdade, nos anos 90 raramente se viam referências ao cérebro nos textos sobre os domínios da cognição, o mesmo não acontecendo hoje. Em qualquer artigo, livro de texto, revista científica ou jornal diário não há tema cognitivo que não seja acompanhado ou de uma imagem do cérebro ou referências a estudos de neuroimagem. O cérebro ocupou as neurociências cognitivas.
A questão que quero aqui tratar é a de saber se esta ocupação do cérebro veio trazer uma maior compreensão aquilo que hoje sabemos sobre a mente. Dito de outro modo, estamos mesmo a aprender qualquer coisa de novo ou importante sobre a psicologia (a ciência do comportamento) ou antes, o que estamos a conhecer melhor são os substractos nos quais a mente assenta? Há muito tempo que alguns nos vêm alertando para o facto de os clínicos se estarem a tornar obcecados com a neuroimagiologia.
Na verdade, não nos podemos esquecer que a localização imagiológica de uma função de componentes de qualquer coisa - partes de carros, de computadores ou de cérebros - pode ser descrita a 4 níveis: (1) o nível da “coisa”, no qual muitas vezes a inclusão de imagem do cérebro ocorre apenas porque ela está disponível e parece bonita; (2) o nível da “localização absoluta”, onde se pode identificar uma determinada área no cérebro, por exemplo, “a amígdala temporal está localizada no lobo temporal”; (3) o nível da “localização relativa”, no qual se identifica uma determinada área em relação a uma outra conhecida, como por exemplo, “a amígdala está à frente do hipocampo”, assumindo que regiões adjacentes de um sistema complexo executam funções relacionadas; (4) o nível “funcional”, no qual é explicada a relação entre a topografia de uma área e a sua função.
Seguindo esta taxonomia, devemo-nos interrogar, antes de proceder a uma análise dos resultados dos estudos de imagiologia cerebral se: (1) a informação sobre “onde-algo-acontece” tem algum interesse para o conhecimento actual da mente? (2) Os principais postulados sobre a localização neuronal são interna e teoricamente coerentes? (3) Os postulados sobre a localização neuronal referem-se a componentes da mente que estejam claramente definidos? (4) Serão os dados actuais da neuroimagiologia (que nos fornecem apenas localizações grosseiras, quer no plano espacial, quer no plano temporal) apenas um prelúdio de uma futura investigação que, essa sim, nos fornecerá dados precisos sobre a localização e a função? Ou será esta localização grosseira aquilo que podemos sempre esperar da técnica de neuroimagem?
Se aplicarmos estas interrogações quando estamos a ler os resultados da literatura sobre imagiologia cerebral verificamos que as conclusões apresentadas nesses estudos apenas nos parecem ser razoáveis se os mecanismos psicológicos forem interpretados de uma forma simplista, pois quando esses mecanismos são interpretados de outra forma, aquelas conclusões rapidamente se tornam pouco razoáveis. Dito de outra forma, as conclusões sobre os estudos de imagiologia cerebral parecem estarem dependentes de teorias e, por isso, vulneráveis a qualquer mudança que possa vir a ocorrer nas ciências cognitivas.



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