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Psicodermatologia / Psychodermatology

Volume XIII Nº2 Março/Abril 2011


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Em Memória / In Memoriam

Volume XIII Nº2 Março/Abril 2011


Em memória de Alan Marlatt
In memoriam of Alan Marlat
Jovem psicólogo clínico recém-chegado a um dos maiores hospitais psiquiátricos portugueses – o Hospital do Lorvão – , quando acabei de ler o livro Relapse Prevention (1985, revisto em 2005) percebi que tinha nas mãos uma das mais importantes obras do século no domínio da adição. O autor, Gordon Alan Marlatt, era um canadiano a residir nos Estados Unidos, do qual tinha lido previamente alguns artigos cujo interesse motivaram que tivesse contactado a editora norte-americana para envio do livro – o que me custou, na altura, quase um terço do parco salário... Foi o maior investimento científico da minha vida. Ao longo de 27 anos de prática clínica, nunca mais me abandonou aquela frescura que arrasou epistemologicamente o vigente edifício bafiento, rígido e moralista feito de “verdades” acerca de doenças aditivas insondáveis, de inexorabilidades do destino, de promiscuidade entre citados “poderes superiores” (divinos?) e postulados pretensamente científicos. Era a coragem do saber-pensar a adição de modo despreconceituoso, livre, expurgado de atalhos hermenêuticos e de moralismos ubíquos – apenas regulado pelo rigor e evidência científicos.
No cenário dos modelos de intervenção, nada voltou a ser o que era no domínio do tratamento dos comportamentos aditivos. A partir de uma exigente metodologia científica de investigação e com uma enorme preocupação taxonómica, a ruptura epistemológica que implicou com o pensamento tradicional na perspectivação da etiologia e terapêutica dos comportamentos aditivos teve uma enorme repercussão nos modelos aplicados no tratamento. Noções como o efeito de violação da abstinência, a identificação e taxonomia dos factores propiciadores da recaída, procedimentos laboratoriais inovadores como o balanced placebo design na discriminação entre os efeitos fisiológicos e psicológicos das substâncias, a descatastrofização do lapso (lapse por oposição a relapse), a reformulação do fenómeno do craving, a valorização do papel dos factores cognitivos e a perspectivação da recaída como uma privilegiada oportunidade de aprendizagem, entraram no léxico de todos os que procuram promover os processos de mudança comportamental na área das toxicodependências. No caso do Lorvão, estes conceitos inspiraram decisivamente o “Programa Cognitivo-Comportamental de Intervenção Terapêutica no Alcoolismo” com técnicas terapêuticas utilizadas no tratamento de milhares de utentes com esta patologia, com assinalável êxito.
Muitos anos depois, em 2008, e enquanto responsável pelo Serviço de Psicologia Clínica, enviei-lhe um e-mail. Disse-lhe da atenção com que seguíamos a sua produção científica, da importância que tinha na melhoria da vida de milhares de pessoas tratadas a partir da sua ajuda inspiradora. Referi-lhe também que não tínhamos dinheiro (pagaríamos apenas as viagens aéreas e o hotel) – mas que seria para nós um momento único tê-lo no Lorvão para nos dizer do seu conhecimento, para debater connosco o “estado da arte”. Respondeu logo que sim, que viria – e que não nos preocupássemos com o dinheiro, precisava apenas de um local para dormir.
Veio. E quão inesquecível foi esse dia no Lorvão ! Mais de 300 técnicos vindos de todo o país (e tivemos de recusar outros tantos pedidos, por limitações de espaço) presenciaram uma magnífica conferência acerca das estratégias de harm reduction (com que corajosamente afrontou as conservadoras políticas assistenciais do “tudo ou nada”) e um excepcional workshop versando a prevenção da recaída. Na memória das nossas emoções ficou-nos o homem cortês, afectuoso, curioso acerca do nosso trabalho, e imagine-se!! até agradecendo a adopção de técnicas terapêuticas por ele descritas. Uma espantosa simplicidade sorridente num gigante da produção científica – em absoluto contraste com a pequenez da arrogância improdutiva tão vulgar em Portugal.
Deu-me a honra de permanecer meu Amigo desde essa altura. Terno, pedia frequentemente que lhe enviasse fotografias dos meus filhos, que conheceu ainda bebés – e invariavelmente respondia escrevendo “how beautiful they are...!!”. Foi meu privilégio saber do que fervilhava a sua inesgotável curiosidade científica e o seu permanente desassossego conceptual, depois de 23 influentíssimos livros e cerca de 300 artigos publicados nas mais prestigiadas publicações internacionais. Nunca consegui que entendesse alguns anacrónicos aspectos do funcionamento científico-institucional em Portugal, nomeadamente no que ao primado corporativo em detrimento do mérito científico diz respeito - respondia-me sempre “impossible, impossible...”.
Deixando-nos um fundamental legado na abordagem científica e terapêutica da adição, Alan Marlatt deixou-nos no dia 14 de Março de 2011. Há pessoas que quando tocam a nossa vida, seja de que forma for, nunca mais saem dela. Vai fazer-me muita falta, como Amigo. E a todos nós, como Mestre e inspirador da vontade de sermos melhores.

Paulo Figueiredo
Psicólogo Clínico no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra



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