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Piromania / Pyromania

Volume XII Nº3 Maio/Junho 2010


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Casos Clínicos / Clinical Cases

Volume XII Nº3 Maio/Junho 2010


Resumo/Abstract

A piromania é um quadro psicopatológico de difícil diagnóstico, especialmente pela falta de experiência dos profissionais de saúde para identificar esta patologia como entidade isolada. Para isto também contribui uma elevada comorbilidade que leva à tendência para considerar a piromania como um sintoma e não como uma síndroma. A piromania pressupõe um comportamento incendiário deliberado e propositado, antecedido por um aumento da tensão afectiva e seguido por alívio desta. É mais frequente em jovens do sexo masculino, e quanto mais tardio for o seu início, pior o prognóstico, com tendência a recidivar. A piromania está caracteristicamente inserida num espectro de comportamentos anti-sociais, e é acompanhada por um ambiente familiar negligente e caótico. Muitas vezes o evento predisponente é o abuso sexual. Neste artigo é descrito um caso clínico de um adolescente, vítima de abuso sexual, que numa perspectiva longitudinal apresenta uma sintomatologia psicopatológica mutável até ao culminar de um quadro de piromania, que surge sobre um terreno fértil para a estruturação de uma perturbação da personalidade com traços anti-sociais e borderline. O prognóstico é reservado dadas as características da família, mas o adolescente mantém-se aderente ao projecto terapêutico e com um funcionamento escolar razoável.

Palavras-chave: abuso sexual; piromania; perturbações da personalidade anti-social e borderline.



Guida da Ponte

Médica Interna de Psiquiatria, Centro Hospitalar Barreiro-Montijo, EPE, Hospital Nossa Sra. Rosário


Maria de Lurdes Candeias

Médica Pedopsiquiatra, Chefe de Equipa da Clínica da Juventude, Hospital Dona Estefânia

Correspondência
Av. Reinaldo dos Santos, Pcta Francisco Cambournac, Lote 7, Zona 9, 1º C, Colinas do Cruzeiro, 2675-688 Odivelas
E-mail: guidadaponte@gmail.com



Introdução



O DSM-IV-TR define piromania como um comportamento incendiário deliberado e propositado em mais do que uma ocasião, que é precedido por aumento da tensão afectiva, e que é seguido por prazer, gratificação ou alívio. Pressupõe uma fascinação, interesse, curiosidade ou atracção pelo fogo, e seu contexto situacional[1]. Este comportamento não surge por interesses económicos, políticos ou criminosos, em si mesmos. O “cenário” do pirómano é bastante característico: normalmente é um jovem, com baixa tolerância à frustração que sofre um evento vital; consequentemente aumenta a sua impulsividade, com a necessidade de obtenção de alívio da raiva. O jovem considera atear fogo, visualiza o cenário e obtém alívio do seu sofrimento, pela destruição ou pelo sentimento de poder. Depois, decide conscientemente atear fogo, mas justifica-se com a necessidade em obter alívio. Obtém serenidade, não tem remorso do seu acto, e assegura-se que não vai apanhado no futuro[2].
Etimologicamente, o termo piromania deriva do grego piro, que significa fogo, e mania, que significa loucura. No entanto, a nomenclatura anglo-saxónica prefere o termo “firesetting”, pois considera que “piromania” traz consigo uma conotação pejorativa. Historicamente, as primeiras tentativas para compreender a tendência incendiária patológica iniciaram-se no fim do século XVIII, com o conceito de monomania (do grego monos, “um”, e mania, “mania”). Durante o século XX, a discriminação da piromania como uma patologia independente foi foco de controvérsias. Em 1940, Nolan Lewis e Yarnell publicam um dos trabalhos mais completos e bem documentados sobre a piromania.

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